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O Fotógrafo (Manoel de Barros)
O Fotógrafo (Manoel de Barros)

 

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Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:


Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.

Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.


O silêncio era um carregador?
Fotografei esse carregador.

 


Tive outras visões naquela madrugada.


Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim num beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.


Vi uma lesma pregada mais na existência do que na pedra.
Fotografei a existência dela.


Vi ainda azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.


Vi uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.

 


Foi difícil fotografar o sobre.
Por fim cheguei a Nuvem de calça.
Representou pra mim que ela andava na aldeia de braços com Maiakovski – seu criador.


Fotografei a Nuvem de calça e o poeta.
Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa mais justa para cobrir sua noiva.


A foto saiu legal.

 

 


 

 Fotografias:

Arimateia Saldanha

Cortez Saldanha

A moça com a câmera foi encontrada na internet

 

 


 

Fonte. http://fmanha.com.br/blogs/imaginar/2010/10/04/o-fotografo-manoel-de-barros/

 

Meu pai sempre dizia:

 - não levante a sua voz, melhore os seus argumentos.

 

Desmond Tutu